"Abençoados sejam os esquecidos,
pois tiram o melhor de seus equívocos."
Nietzsche
Este filme merece uma resenha. As imagens, metafóricas, confusas como a psique humana. As cenas e frases, metonímicas, se sobrepõem como um sonho interminável.
Surpreendente e maravilhosa atuação dramática de Jim Carey, escapando às caricaturizações e expressões exageradas.
E a pergunta que fica: É possível deletar fragmentos de nossa memória e recomeçar um trajeto a partir da descontinuidade? Em sendo possível, recomeçaríamos sem cometer os mesmos tropeços, os mesmos enganos, as mesmas escolhas? Talvez uma resposta afirmativa a estas questões seja um desejo muito forte entre nós; talvez seja uma lógica semelhante em que operam os traumas, momentos significativos no qual varremos lembranças de experiências perturbadoras, para nosso inconsciente, pois é a única saída encontrada [como defesa] para seguir adiante.
Mas o fato é que, subtrair estas memórias não implica em eliminar um sofrimento, por que continuamos buscando as mesmas experiências desafiadoras de nossa estrutura, e de repente estamos vivendo novamente parecida [se não a mesma] situação perturbadora. Por que afastar uma lembrança não é superar, sintetizar. Esquivar-se da mesma é tirar da consciência aquela sensação que incomoda, mas ela fica latente, a qualquer momento nos desarma.
E o desfecho do filme aponta neste sentido. Os esquecidos são levados, inconscientemente, a ativar o processo que os motivou a apagar as lembranças da mente. No caso particular, a [re]ativação foi gerada pelo mesmo objeto. Mas trazendo para o contexto de uma dita realidade, percebemos que boa parte das pessoas opera o esquecimento por se tratar da saída mais fácil, mas não se dão conta de que atraem ou se sentem atraidas pelas pessoas/situações que remetem ao fato "esquecido", e consequentemente propiciam a [re]vivencia do mesmo padrão.
Enfim, assistam quando tiverem oportunidade, e comentem. Não existem verdades absolutas, e sim multiplicidades de interpretações, motivada pela subjetividade de cada um. Acho que este filme propicia interessantes reflexões em cada um de nós.
domingo, 20 de junho de 2010
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Rima rica/Frase feita
Desculpe, meu bem
Se ontem te fiz chorar
Mas a vida é assim mesmo
Não se pode exigir
Pouco dá pra esperar
Muito obrigado por tudo
Pelo teu suor, pelos teus gemidos
E espero que a minha estupidez
Cicatrize teus sentimentos feridos
Nasci e morro assim, só
Perdido no escuro, dentro de mim
E vou cruzando o barro
Vou comendo pó
Até que chegue o fim
Mas a força eu retiro
Sugo feito vampiro
De saber que as estrelas
Também vivem sós
De um cigarro amassado
De uma rua deserta
De outros que até eu posso sentir dó
Da menina de olhos grandes como a lua
De uma noite sentindo tua carne crua
E dos bares, das festas
Dos vinhos, serestas
Das mentes infestas de podres horrores
De mil desamores
Do chope das quatro
Desse louco mundo putrefato
Dessa grande peça de teatro
Nei Lisboa
Se ontem te fiz chorar
Mas a vida é assim mesmo
Não se pode exigir
Pouco dá pra esperar
Muito obrigado por tudo
Pelo teu suor, pelos teus gemidos
E espero que a minha estupidez
Cicatrize teus sentimentos feridos
Nasci e morro assim, só
Perdido no escuro, dentro de mim
E vou cruzando o barro
Vou comendo pó
Até que chegue o fim
Mas a força eu retiro
Sugo feito vampiro
De saber que as estrelas
Também vivem sós
De um cigarro amassado
De uma rua deserta
De outros que até eu posso sentir dó
Da menina de olhos grandes como a lua
De uma noite sentindo tua carne crua
E dos bares, das festas
Dos vinhos, serestas
Das mentes infestas de podres horrores
De mil desamores
Do chope das quatro
Desse louco mundo putrefato
Dessa grande peça de teatro
Nei Lisboa
Indiscrição
O curso de ciências sociais na universidade federal é tão segmentado, que indagar ao colega qual tema você está pesquisando chega a ser uma pergunta indiscreta.
domingo, 13 de junho de 2010
Abrindo espaços intimos
Ela sabia que a entrada daquele homem pela porta de sua casa não era uma coisa banal. Não chegava a ser um terremoto, mas se preparava para alguns deslocamentos geológicos na sua alma. Diria que ela propiciava que isto acontecesse, como se ali fosse se cumprir um ritual. E seria bom que ele também soubesse disto, que as pessoas não deviam entrar numa vida, numa casa, e conseqüentemente num corpo de maneira desatenta e egoísta. A casa é lugar de permanência mais que motel ou hotel. Exige cumplicidades mais delicadas.
Contudo, precavida quanto a essa noção de permanência, sabendo que a vida às vezes é um deserto por onde passam caravanas e tuaregues, admitiu que já seria bom se a casa se convertesse num oásis.
Os primitivos sabem melhor que nós, pretensos civilizados, que estabanadamente banalizamos tudo, que o ritual é que dá sentido aos fatos. Mínimos gestos ou certos instantes podem se tornar históricos se estiverem entranhados desse rítimo denso e adágio que têm os rituais.
Cruzar o umbral, a soleira, ultrapassar um limite são coisas graves.
Porque uma coisa é o ver, o aproximar-se, o apertar a mão, dar um sorriso e se tocar progressivamente procurando intimidade. Mais do que ocupar espaços, isto é ir povoando espaços. Externamente é quando os amantes vão se ampliando, se alongando e habitando conjuntamente o que é público: o cinema, o restaurante, a caminhada na praça ou praia. Mas, de repente, estar na casa, na sala, no quarto, no toalete do outro, ver as roupas dependuradas nos cabides, a escova e os grampos na bancada junto à pia, os vidros de perfumes, aqueles objetos de decoração na mesa da sala, cinzeiros de prata, uma escultura da polinésia ou cópia de uma santa barroca, isso, convenhamos, é estar com a alma exposta.
É como abrir portas, janelas, e gavetas. Há o inesperado. E as pessoas e casas, o que são senão gavetas dentro de gavetas, caixas dentro de caixas? Então, ir se aproximando de alguém, penetrar no espaço físico onde a figura amada habita é ir, como na estrutura da caixa chinesa, que contém uma caixa menor, que contém outra menor ainda, que contém outra e outras, até, enfim, chegar ao latente coração do outro.
Esta mulher está rodeada de objetos que tiveram uma história, outras histórias. E durante algum tempo, como se estivesse num luto secreto, adiou reinaugurar o leito, reencenar os gestos, esperar que outro homem fizesse brotar nela arrebatamentos em insuspeitadas regiões de seu corpo.
Até os objetos se deram conta de que ela está oferecendo algo muito delicado. Daí uma cumplicidade entre os objetos da casa e o corpo desta mulher. Elas também esperam que esse homem venha como um cauteloso conquistador. Há uma expectativa no ar, a cômoda barroca guarda em suas volutas e elipses alguma tensão, o abajur emana uma contida luz e os tapetes parecem reanimar ternuras. Enfim, os objetos estão conscientes de seu papel de coadjuvantes.
Se ele, em vez da delicadeza do gato que é capaz de passar por taças de cristal sem quebrá-las, for do tipo invasor, um godo ou visigodo, que não controla os limites de seu corpo e fala preenchendo tudo egocêntrica e desatentamente, então ocorrerá uma inapelável ruptura, a profanação do instante.
Ela gostaria que ele chegasse como o viajante que vindo de longe, no entanto, fala a sua língua. Alguém que não extrapolasse do presente e nem invadisse seu passado e futuro. Que passado e futuro competem a ela doar, quando e a quem os merecer.
Ela o quer nos limites para os quais está preparada agora.
Ela queria que ele chegasse com a virilidade suave de um anjo. E que quando despertasse no dia seguinte tivesse aquela sensação do mito antigo, de que um dia deus dormiu lá em casa. Tranqüila de ela veria que a casa e todos os objetos estariam em ordem. Só que encantados. Encantados como ela, que encantada sai para um novo dia com um sorriso de posse e confiança.
E se ela olhasse para trás veria que os objetos da casa a contemplam cúmplices e igualmente felizes.
Affonso Romano Santt'ana - Tempo de Delicadeza.
Amor Romântico
Quantas vezes damo-nos conta
de que nos apaixonamos pelo ideal do amor?
Por vezes este apaixonar-se não encontra objeto algum
No entanto existe uma necessidade de direcioná-lo
dar-lhe foco, personificá-lo.
E assim se sucedem as estações.
Estaria certo o poeta Cazuza que disse
O nosso amor a gente inventa, pra se distrair?
de que nos apaixonamos pelo ideal do amor?
Por vezes este apaixonar-se não encontra objeto algum
No entanto existe uma necessidade de direcioná-lo
dar-lhe foco, personificá-lo.
E assim se sucedem as estações.
Estaria certo o poeta Cazuza que disse
O nosso amor a gente inventa, pra se distrair?
sábado, 5 de junho de 2010
Reciprocidade
Fico sempre satisfeita em poder contribuir às pessoas, mesmo que seja em pequenas coisas. Faço isso sempre que tenho oportunidade. O doar-se não implica em receber necessariamente qualquer coisa em troca imediatamente, muito menos diretamente do ser depositório da doação, No entanto este sentir-se útil é uma sensação muito recompesadora!
Que maravilha poder sentir isto novamente!
Que maravilha poder sentir isto novamente!
"Quem tem consciencia para ter coragem"
Depois de um período de euforia, sempre vem o enfrentamento da realidade, tal como ela é.
Ao impulso criador geralmente é sucedido a períodos de inércia e falta de retorno, que desafiam nossa capacidade de persistencia para semear projetos iniciados, ou idéias brotadas. Nada, nenhum projeto me cativou o bastante para levá-lo a cabo, ir até o fim. Já fui acusada de ser instável. Me vejo, por vezes tentando pegar o caminho mais fácil, mas já aprendi que este não leva a satisfação pessoal. O tempo é implacável. É tempo de recolher-se e produzir. O espírito interior que me guia ao menos já conseguiu se tranquilizar, a ponto de não intentar, em vão, buscar no exterior alimento, pois já sabe que não sacia; depois de profundo mergulho interior, ele já sabe onde produzir o alimento. Ele já se entende, já se aceita.
Agora só precisa de um tantinho de coragem, para enfrentar o medo, e realizar aquilo que sente ser significativo para o universo, aquilo que contribua, mesmo que minimamente, ao todo. E sabe que não será facil, mas aceita o desafio. E segue-se.
Ao impulso criador geralmente é sucedido a períodos de inércia e falta de retorno, que desafiam nossa capacidade de persistencia para semear projetos iniciados, ou idéias brotadas. Nada, nenhum projeto me cativou o bastante para levá-lo a cabo, ir até o fim. Já fui acusada de ser instável. Me vejo, por vezes tentando pegar o caminho mais fácil, mas já aprendi que este não leva a satisfação pessoal. O tempo é implacável. É tempo de recolher-se e produzir. O espírito interior que me guia ao menos já conseguiu se tranquilizar, a ponto de não intentar, em vão, buscar no exterior alimento, pois já sabe que não sacia; depois de profundo mergulho interior, ele já sabe onde produzir o alimento. Ele já se entende, já se aceita.
Agora só precisa de um tantinho de coragem, para enfrentar o medo, e realizar aquilo que sente ser significativo para o universo, aquilo que contribua, mesmo que minimamente, ao todo. E sabe que não será facil, mas aceita o desafio. E segue-se.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
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