terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Melhor poema da edição da Carris deste ano.

No circo, o homem pinta a cara
e faz piruetas para o povo sorrir;
no palco, o homem, num ato cênico,
teatraliza o real para o povo se divertir;
no palanque, o homem, num ato cínico,
realiza, teatral, o seu projeto pessoal,
com a cara lisa e o bolso cheio
do real alheio;
e ao povo enganado, nem pão nem circo.


Carlos Alberto de Assis Cavalcanti


domingo, 22 de novembro de 2009

Quero o doce sabor do encantamento.
Quero sentir o aroma da harmonia.
Quero momentos de leveza.
Quero plantar prazer na convivência.

Este querer não deve ser uma via única.
Este querer precisa encontrar acalento.
Somos eternos proliferadores de bons sentimentos
Através da troca e compartilhamento.
De repente
Me veio uma sensação forte
De estar caminhando
Contra a correnteza.
Que estou desafiando
Os limites do Tempo.
Devo seguir para a direção
Em que há fluidez.

Por falar em tempo...

Nada sei do futuro
Quantos lugares explorarei?
Que abraços me esperarão?
Quais olhares encontrarei?
A única instância do tempo
Que posso tocar, manusear
É o instante presente.
Em alguns momentos da vida
Faz-se necessário a destruição.
O fim de um ciclo propicia
A construção a partir de perspectivas novas
A partir de uma vibração diferente
Que tudo vê com olhos outros
Atentos, maduros, sensíveis.
Pois estes mesmos olhos são humildes
Visualizam o reflexo dos atos idos
E desenvolvem a própria cura.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Oração Ao Tempo

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

Caetano Veloso

sábado, 14 de novembro de 2009

Minha Casa

É mais fácil
Cultuar os mortos
Que os vivos
Mais fácil viver
De sombras que de sóis
É mais fácil
Mimeografar o passado
Que imprimir o futuro...

Não quero ser triste
Como o poeta que envelhece
Lendo Maiakóvski
Na loja de conveniência
Não quero ser alegre
Como o cão que sai a passear
Com o seu dono alegre
Sob o sol de domingo...

Nem quero ser estanque
Como quem constrói estradas
E não anda
Quero no escuro
Como um cego tatear
Estrelas distraídas
Quero no escuro
Como um cego tatear
Estrelas distraídas...

Amoras silvestres
No passeio público
Amores secretos
Debaixo dos guarda-chuvas
Tempestades que não param
Pára-raios quem não tem
Mesmo que não venha o trem
Não posso parar
Tempestades que não param
Pára-raios quem não tem
Mesmo que não venha o trem
Não posso parar...

Veja o mundo passar
Como passa
Uma escola de samba
Que atravessa
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Sentado na porta
De minha casa
A mesma e única casa
A casa onde eu sempre morei
A casa onde eu sempre morei
A casa onde eu sempre morei...

Zeca Baleiro

Projeto

Quero projetar o futuro
sem esquecer de trilhar o trajeto.
Se este for longo,
duro, incerto ou deserto
Me desvencilho do medo
Caso meu coração aponte
estar no caminho reto.

Vislumbramento.

Não sei explicar por que te amo
Nem quero me preocupar
Com os (des)caminhos da razão.
Procuro a cada nascer do sol
A esperança da compreensão
Apreender a alteridade.

Mergulho em mim mesma
E vislumbro a profundidade
dos agires, quereres, sentires.
Quero buscar a alegria
nos cantos mais simples do viver.
Quero estar contente
em estar exatamente onde estou.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cartomancia.

O Sol
A Carta
O Coração.

Não posso olvidar.
Jamais.

Singela Homenagem.

"O dia em que se chegar a compreender a vida como uma função da matéria inerte será para descobrir que ela possui propriedades diferentes das que lhe atribuíam."

Claude Levi-Strauss
Citação retirada da obra Pensamento Selvagem

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Delírio

Não vou buscar
A esperança
Na linha do horizonte
Nem saciar
A sede do futuro
Da fonte do passado
Nada espero
E tudo quero
Sou quem toca
Sou quem dança
Quem na orquestra
Desafina

Quem delira
Sem ter febre

Só o par
E o parceiro
Das verdades
À desconfiança

Secos & Molhados
Gerson Conrad e Paulinho Mendonça

sábado, 31 de outubro de 2009

"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido até a última gota.

Sem nenhum medo. Não mata."

Clarice Lispector

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

(en)Cantar

Há um não sei o quê de euforia
Imersão e harmonia
No nosso ato de cantar
Que nos conecta a um estado
De leveza do não querer ser
Não querer pensar
E assim ecoar e entoar
O divino som da alma.

Uns Versos


Sou sua noite, sou seu quarto
Se você quiser dormir
Eu me despeço
Eu em pedaços
Como um silêncio ao contrário
Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo

Sou seu fado, sou seu bardo
Se você quiser ouvir
O seu eunuco, o seu soprano
Um seu arauto
Eu sou o sol da sua noite em claro,
Um rádio
Eu sou pelo avesso sua pele
O seu casaco

Se você vai sair
O seu asfalto
Se você vai sair
Eu chovo
Sobre o seu cabelo pelo seu itinerário
Sou eu o seu paradeiro
Em uns versos que eu escrevo
Depois rasgo
E depois, rasgo.

Adriana Calcanhoto

domingo, 25 de outubro de 2009

Processo

Aroma de primavera
Brisa suave envolvendo a pele
E a alma repousa de um vôo leve.
Apenas é, apenas sente
A simplicidade de um dado instante
O presente.

E não intenta lançar à razão
Impecilhos.
Não intenta mover-se
impulsionada por desejos latentes.

Apenas ousa voar, libertar, fluir.
Talvez em outro tempo
Trabalha para fertilizar o solo.
Semeia...
E neste ato,transmite amor
Energia, Pureza, Leveza.

E espera.
A colheita de um fruto
Do qual o sabor desconhece.
E aceita.
Contenta-se em estar
Plenamente cônscia
Do processo.

sábado, 24 de outubro de 2009

Um brinde ao sol em escorpião...
É tempo de mergulho nas profundezas,
degeneração, renascimento.

É tempo de lidar com os os desejos escondidos,
As pulsões inconscientes,
Com o lago, nem sempre sereno, do mundo interior.

Ser cônscio implica em desconstruir.
A desconstrução pede novos conceitos
para ressignificar a existência.
"SEM ESSA
DE DIZER QUE
A PRESSA
É INIMIGA DA PERFEIÇÃO
EU SOU AMIGO DA PRESSA
PERFEIÇÃO NÃO ME INTERESSA

TUDO QUE É PERFEITO
ESTÁ MORTO
EU QUERO O FEIO,
O ERRADO, O TORTO
AS IMPUREZAS DA ALMA
E IMPERFEIÇÕES DO CORPO

SE A PRESSA É INIMIGA
DA PERFEIÇÃO
É AMIGA DA MUDANÇA
IRMÃ DA REVOLUÇÃO."
(De Eliakim Rufino, ofertado pelo poeta Pedro Júnior)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Espaço

Quarto de não dormir
Sala de não estar
Porta de não abrir
Pátio de sufocar

Carta no corredor
Eu não vou nem pegar
A voz no gravador
Não quero escutar

A lua é um farol
O vento, um assobio
A foto é um out-door
Teu rosto em 3x4
Mostra que

Tudo
Na madrugada
Insiste em ficar
Já que existe
Tanto espaço em mim

Juro
Na luz do dia
Todas as coisas
Vão me perder
Como te perdi


Vitor Ramil

segunda-feira, 14 de setembro de 2009


Nos cantos escuros da alma,
Na face por vezes inacessível
Por vezes se revela
E de relance contradiz
A mais intocada (in)verdade.
Quando o amor vos chamar, segui-o,
Apesar de seu caminho ser duro e íngreme.
E quando suas asas o envolverem, abraçai-o,
Apesar da espada escondida entre suas penas poder ferir-vos.
E quando ele falar convosco, acreditai nele,
Apesar de sua voz pode esfacelar vossos sonhos como o vento norte arruína o jardim.

Pois mesmo quando o amor vos coroa, ele vos crucifica.

O amor não da nada além de si mesmo e não toma nada além de si mesmo.
O amor não possui e nem é possuído;
Pois o amor é suficiente ao amor.

Quando vós amais, não deveis dizer: "Deus está no meu coração", mas sim "Estou no coração de Deus".
E não pensai que podeis dirigir o curso do amor, pois o amor, se achar que mereceis, dirige o vosso curso.

Khalil Gibran

sábado, 15 de agosto de 2009

Teu semblante
continua recorrente em meus sonhos:
através de uma presença incessante,
marcada por uma natureza dialética
de síntese e antítese.
O que dizer
Quando os pensamentos
Querem transbordar em palavras,
Quando sentimentos invadem,
E já perderam seu rumo de expressão?

Como dizer
Em meio ao imenso turbilhão
Do pensar, querer e sentir
Inquieto
E, no entanto,
Calado
Intocado.

As impressões permancem
No eterno enredo do imaginário,
na descontinuidade do querer
(quase) secreto.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Guardiã

Eu não tenho um verdadeiro amor guardado
sou guardiã de extintos amores falsos
sei que no passado fizeram parte
e o que foi feito me reparte
neste exato momento
eu não sei mais entender de guerrilhas
nem de selvas e abismo
trabalho num posto da burocracia
já não descubro ou conquisto
arquivo
e se me perguntarem se guardo segredo
com cuidado, falando baixo, respondo
tanto quanto um chuveiro
guarda os pingos da chuva


Este poema quem escreveu foi minha grande amiga lis...postei aqui pois me identifico muito com os versos que traduzem alguns dos meus sentimentos . Lis adoro-te!

domingo, 26 de abril de 2009

Sentimentos perdidos...

"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva."

Caio Fernando Abreu

sábado, 25 de abril de 2009

...

" E a minha voz nascerá de novo,
talvez noutro tempo sem dores,
e nas alturas arderá de novo o meu coração
ardente e estrelado"

Pablo Neruda

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Eterna construção

"Faze-te sem limites no tempo."

Cecília Meireles

Nesta Sala Escura

Não me diga aquilo que eu quero ouvir
Não me fale aquilo que já sei
Só me prove tudo aquilo que não quero saber
E não me deixe esperando
Não me deixe imaginando
O que poderia ser
Me conte tudo
Nos mínimos detalhes
E faça o meu destino se cumprir
Fale a verdade
Seja sincero
Não meça palavras
Não queira me poupar
Mas me conte tudo aquilo
Que eu não quero acreditar
Nos mínimos detalhes
Até que a ultima lágrima escorra
dos teus límpidos olhos castanhos
Até que o último suspiro ecoe
Nesta sala escura
A dor da verdade
Irá me curar
A dor da verdade
Um dia vai te machucar
Portanto não tenha medo
E me diga tudo aquilo que eu não quero ouvir
fale tudo o que eu não sei
Me prove aquilo que eu quero saber

Brisa

Reflito....e sem apego repito
Aquilo que os sentidos ditam
E me abstenho
Me desdenho
Dos caminhos turvos
Quero correr o risco
Quero sentir o chuvisco
Escorrer pela minha face
Deslizar pelo corpo
Me entregar ao acaso
Esbarrar no desconhecido

Que, em realidade
finge acreditar que desconhece
o intimamente já compreendido